segunda-feira, 31 de maio de 2010

Friedrich Nietzsche/Schopenhauer Como Educador

§ 8

(...)E, por fim, em que neste mundo importa a nossos jovens a história da filosofia? Será que eles devem, pela confusão das opiniões, ser desencorajados de terem opiniões? Será que devem ser ensinados a participar do coro de júbilo: como chegamos tão esplendidamente longe? Será que, porventura, devem aprender a odiar ou desprezar a filosofia? Quase se poderia pensar este último, quando se sabe como os estudantes têm de se martirizar por causa de suas provas de filosofia, para imprimir as ideias mais malucas e mais espinhosas do espírito humano, do lado das mais grandiosas e mais difíceis de captar, em seu pobre cérebro. A única crítica de uma filosofia que é possível e que além disso demonstra algo, ou seja, ensaiar se se pode viver segundo ela, nunca foi ensinada em universidades: mas sempre a crítica de palavras com palavras. E agora pense-se em uma cabeça juvenil, sem muita experiência da vida, em que cinquenta sistemas em palavras e cinquenta críticas desses sistemas são guardados juntos e misturados - que aridez, que selvageria, que escárnio, quando se trata de uma educação para a filosofia! Mas, de fato, todos reconhecem que não se educa para ela, mas para uma prova de filosofia: cujo resultado, sabiamente e de hábito, é quem sai dessa prova - ai, dessa provação! - confessa a si mesmo com um profundo suspiro: " Graças a Deus que não sou filósofo, mas cristão e cidadão do meu Estado!"
E se esse suspiro profundo fosse justamente o propósito do Estado, e a "educação para a filosofia", em vez de conduzir a ela, servisse somente para afastar da filosofia?

Friedrich Nietzsche. Schopenhauer Como Educador. Coleção Os Pensadores, São Paulo,Nova Cultural,1999, p.300

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Baruch Espinosa/A Origem e a Natureza das Paixões:Os Afetos são Naturais aos Seres Humanos

Aqueles que escreveram sobre as Paixões e a conduta da vida humana parecem, na sua maioria, tratar não de coisas naturais que decorrem das leis comuns da Natureza, mas de coisas que estão fora da Natureza. Na verdade, dir-se-ia que concebem o homem na Natureza como um império dentro de um império. Supõem, com efeito, que o homem perturba a ordem da Natureza mais que a segue, que tem sobre suas próprias ações um poder absoluto e tira apenas dele mesmo sua determinação. Procuram pois a causa da impotência e da inconstância humanas não na potência comum da Natureza, mas em não sei qual vício da natureza humana e, por essa razão, choram por causa dela, riem, desprezam-na, ou a mais das vezes a detestam; quem sabe mais eloquentemente ou mais sutilmente censurar a impotência da alma humana é tido por divino. Não têm faltado decerto homens eminentes (a cujo labor e indústria confessamos dever muito) para escrever sobre a reta conduta da vida muitas coisas excelentes e dar aos mortais conselhos cheios de prudência; mas, quanto a determinar a natureza e as forças das Paixões e o que pode a alma, por seu lado, para as governar, ninguém que eu saiba ainda o fez. Na verdade, o célebre Descartes, se bem que tenha admitido o poder absoluto da alma sobre suas ações, tentou, ao que sei, explicar as afecções humanas pelas suas causas primeiras e mostrar ao mesmo tempo por que vias a alma pode ter sobre as Paixões um império absoluto; mas, na minha opinião, não mostrou ele senão a penetração de seu grande espírito, como estabelecerei em lugar próprio. Por enquanto, quero referir-me àqueles que preferem detestar ou ridicularizar as Paixões e as ações dos homens, a conhecê-las. A eles decerto parecerá surpreendente que eu empreenda tratar dos vícios dos homens e da sua inépcia à maneira dos geômetras e que queira demonstrar por um raciocínio rigoroso o que não cessam de proclamar contrário à razão, vão, absurdo e digno de horror. Mais eis aqui minha razão. Nada acontece na Natureza que possa ser atribuído a um vício existente nela, ela é sempre a mesma, com efeito; sua virtude e poder de ação são os mesmos em toda parte, isto é, as leis e regras da Natureza conforme as quais tudo acontece e passa de uma forma a outra, são, em toda parte e sempre, as mesmas; por consequência, o único meio de conhecer a natureza das coisas, sejam elas quais forem, deve ser também o mesmo: isto é, sempre pelas leis e regras gerais da Natureza. As Paixões, pois, do ódio, da cólera, da inveja etc., consideradas em si mesmas, decorrem da mesma necessidade e da mesma virtude da Natureza que as outras coisas singulares; por consequência admitem certas causas, por onde são claramente conhecidas, e têm certas propriedades tão dignas de conhecimento como as propriedades de uma outra coisa qualquer cuja consideração apenas nos causa prazer. Tratarei pois da natureza das Paixões e de suas forças, do poder da Alma sobre elas, segundo o mesmo método com que nas partes precedentes tratei de Deus e da Alma, e considerarei as ações e apetites humanos, como se se tratasse de linhas, superfícies e sólidos.

Baruch Espinosa, Ética – Prefácio do Livro III, Rio de Janeiro, Ediouro, p.87

quarta-feira, 24 de março de 2010

Michel de Montaigne/De Como Filosofar é Aprender a Morrer

Não sabemos onde a morte nos aguarda, esperemo-la em toda parte. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento.
(...)
Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante. Imagináveis então nunca chegardes ao ponto para o qual vos dirigíeis? Haverá caminho que não tenha fim? E se o fato de ter companheiros vos pode consolar, pensai que o mundo inteiro segue caminho idêntico: “As raças futuras vos seguirão por sua vez” (Lucrécio).
Tudo obedece ao mesmo impulso a que obedeceis. Haverá algo que não envelheça como vós envelheceis? Milhares de homens, milhares de animais, milhares de outras criaturas morrem no mesmo instante que morreis: “não há uma só noite, nem um só dia em que não ouçam, misturados aos vagidos dos recém-nascidos, os gritos de dor em torno dos esquifes”(Lucrécio).

Michel de Montaigne, Ensaios, Livro I, Cap.XX.São Paulo, Nova Cultural, 1996, p.p.97,103-104.

terça-feira, 23 de março de 2010

Immanuel Kant/Resposta à pergunta: Que é “Esclarecimento”? (“Aufklärung”)



Esclarecimento [“Aufklärung”] é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento [“Aufklärung”].
A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem no entanto de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam por que é tão difícil que os outros se constituam em tutores deles. É tão cômodo ser menor. Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que por mim decide a respeito de minha dieta etc., então não preciso de esforçar-me eu mesmo. Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros se encarregarão em meu lugar dos negócios desagradáveis. A imensa maioria da humanidade (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e além do mais perigosa, porque aqueles tutores de bom grado tomaram a seu cargo a supervisão dela. Depois de terem primeiramente embrutecido seu gado doméstico e preservado cuidadosamente estas tranquilas criaturas a fim de não ousarem dar um passo fora do carrinho para aprender a andar, no qual as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça se tentarem andar sozinhas.Ora, este perigo na verdade não é tão grande, pois aprenderiam muito bem a andar finalmente, depois de algumas quedas. Basta um exemplo deste tipo para tornar tímido o indivíduo e atemorizá-lo em geral para não fazer outras tentativas no futuro.
É difícil portanto para um homem em particular desvencilhar-se da menoridade que para ele se tornou quase um natureza. Chegou mesmo a criar amor a ela, sendo por ora realmente incapaz de utilizar seu próprio entendimento, porque nunca o deixaram fazer a tentativa de assim proceder. Preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes do abuso, de seus dons naturais, são grilhões de uma perpétua menoridade. Quem delas se livrasse só seria capaz de dar um salto inseguro mesmo sobre o mais estreito fosso, porque não está habituado a este movimento livre. Por isso são muito poucos aqueles que conseguiram, pela transformação do próprio espírito, emergir da menoridade e empreender então uma marcha segura.
Que porém um público se esclareça [“aufkläre”] a si mesmo é perfeitamente possível; mais que isso, se lhe for dada liberdade, é quase inevitável. Pois encontrar-se-ão sempre alguns indivíduos capazes de pensamento próprio, até entre os tutores estabelecidos da grande massa, que depois de terem sacudido de si mesmo o jugo da menoridade, espalharão em redor de si o espírito de uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem em pensar por si mesmo. O interessante nesse caso é que o público, que anteriormente foi conduzido por eles a este jugo, obriga-os daí em diante a permanecer sob ele, quando é levado a se rebelar por alguns de seus tutores que, eles mesmos, são incapazes de qualquer esclarecimento [“Aufklãrung”]. Vê-se assim como é prejudicial plantar preconceitos, porque terminam por se vingar daqueles que foram seus autores e predecessores destes. Por isso, um público só muito lentamente pode chegar ao esclarecimento [“Aufklärung”]. Uma revolução poderá talvez realizar a queda do despotismo pessoal ou da opressão ávida de lucros ou de domínios, porém nunca produzirá a verdadeira reforma do modo de pensar. Apenas novos preconceitos, assim como os velhos, servirão como cintas para conduzir a grande massa destituída de pensamento.
Para este esclarecimento [“Aufklärung”] porém nada mais exige senão Liberdade. E a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade, a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todas as questões. (...) Que limitação, porém, impede o esclarecimento [“Aufklärung”]? Qual não o impede, e até mesmo o favorece? Respondo: o uso público de sua razão deve ser sempre livre e só ele pode realizar o esclarecimento [“Aufklärung”] entre os homens.
(...)
(...) Um homem sem dúvida pode, no que respeita à sua pessoa, e mesmo assim só por algum tempo, na parte que lhe incumbe, adiar o esclarecimento [“Aufklärung”]. Mas renunciar a ele, quer para si mesmo quer ainda mais para sua descendência, significa ferir e calcar aos pés os sagrados direitos da humanidade. (...)
Se for feita a pergunta:”vivemos agora em uma época esclarecida [aufklärten]”?, a resposta será: “não, vivemos em uma época de esclarecimento [“Aufklärung”]. Falta ainda muito para que os homens, nas condições atuais, tomados em conjunto, estejam já numa situação, ou possam ser colocados nela, na qual em matéria religiosa sejam capazes de fazer uso seguro e bom de seu próprio entendimento sem serem dirigidos por outrem. Somente temos claros indícios de que agora lhes foi aberto o campo no qual podem lançar-se livremente a trabalhar e tornarem progressivamente menores os obstáculos ao esclarecimento [“Aufklärung”] geral ou sua saída deles, homens de sua menoridade da qual, são culpados. Considerada sob este aspecto, esta época é a época do esclarecimento [“Aufklärung”] ou o século de Frederico.

Immanuel Kant, Resposta à Pergunta: Que é “Esclarecimento”? [“Aufklärung”]. Tradução de Floriano de Souza Fernandes. Petrópolis, Vozes, 1985, pp.100-104 e 110,112.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Maurice Merleau-Ponty/Elogio da Filosofia

(...) O que caracteriza o filósofo é o movimento que leva incessantemente do saber à ignorância, da ignorância ao saber, e um certo repouso neste movimento.
(...)
Qualquer filosofia é também uma arquitetura de sinais, forma-se em estreita relação com as outras formas de contato que constituem a vida histórica e social. A filosofia está no seio da história; não é nunca independente do transcurso histórico.
(...)
Pois é impossível negar que a filosofia coxeia. Habita a história, mas queria instalar-se no seu centro, naquele ponto em que são advento, sentido nascente. Sente-se mal no já feito. Sendo expressão só se realiza renunciando a coincidir com aquilo que exprime e afastando-se dele para lhe captar o sentido (...) O filósofo dá ao homem sério - à ação, à religião, às paixões - uma atenção talvez mais aguda do que qualquer outra pessoa, mas, precisamente por isso, sente-se que ele está de fora.
(...)
O coxear do filósofo é a sua virtude. A verdadeira ironia não é um álibi, é uma obrigação, sendo o desinteresse do filósofo o que lhe confere um certo tipo de ação entre os homens.
(...)
No fim de uma reflexão que começa por suprimi-lo, para melhor lhe fazer experimentar os laços da verdade que o ligam ao mundo e à história, o filósofo encontra, não o abismo do eu ou do saber absoluto, mas a imagem renovada do mundo, e nela a sua própria, entre os outros. A sua dialética ou a sua ambiguidade é apenas uma maneira de dizer aquilo que cada homem muito bem sabe: o valor dos momentos em que efetivamente, a vida se renova, continuando, se reencontra e se compreende, ultrapassando-se, em que o seu mundo privado se torna mundo comum. Estes mistérios existem nele como em cada um de nós.
(...)
O filósofo é o homem que desperta e fala, e o homem contém em silêncio os paradoxos da filosofia, porque, para ser plenamente homem, é preciso ser um pouco mais e um pouco menos do que homem.
Maurice Merleau-Ponty, Elogio da Filosofia. Tradução: Antonio Braz Teixeira, Lisboa, Guimarães Editores, 1962, p.p. 17, 75, 78, 81, 83 e 84.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Etienne La Boétie/Discurso da Servidão Voluntária

Por hora gostaria apenas de entender como pode ser que tantos homens, tantos burgos, tantas cidades, tantas nações suportam às vezes um tirano só, que tem apenas o poderio que eles lhe dão, que não tem o poder de prejudicá-los senão enquanto têm vontade de suportá-lo, que não poderia fazer-lhes mal algum senão quando preferem tolerá-lo e contradizê-lo. Coisa extraordinária, por certo; e porém tão comum que se deve mais lastimar-se do que espantar-se ao ver um milhão de homens servir miseravelmente, com o pescoço sob o jugo, não obrigados por uma força maior, mas de algum modo (ao que parece) encantados e enfeitiçados apenas pelo nome de um, de quem não devem temer o poderio pois ele é só, nem amar as qualidades pois é desumano e feroz para com eles.
(...)
Mas, ó Deus, o que pode ser isso? Como diremos que isso se chama? Que infortúnio é esse? Que vício infeliz ver um número infinito de pessoas não obedecer mas servir, não serem governadas mas tiranizadas, não tendo nem bens, nem parentes, mulheres nem crianças, nem sua própria vida que lhe pertença; aturando os roubos, os deboches, as crueldades, não de um exército, de um campo bárbaro contra o qual seria preciso despender o seu sangue e sua vida futura, mas de um só; não de um Hércules nem de um Sansão, mas de um só homenzinho, no mais das vezes o mais covarde e feminino da nação, não acostumado à pólvora das batalhas mas com muito custo à areia dos torneios, incapaz de comandar os homens pela força mas acanhado para servir vilmente à menor mulherzinha. Chamaremos isto de covardia? Diremos que os que servem são covardes e moídos? É estranho, porém possível, que dois, três, quatro não se defendam de um; poder-se-á então dizer com razão que é falta de fibra. Mas se cem, se mil aguentam um só, não se diria que não querem, que não ousam atacá-lo, e que não se trata de covardia e sim desprezo ou desdém? Se não vemos cem, mil homens, mas cem países, mil cidades, um milhão de homens não atacarem um só, de quem o mais bem tratado de todos recebe esse mal de ser servo e escravo, como poderemos nomear isso? Será covardia? Ora, naturalmente em todos os vícios há algum limite além do qual não podem passar; dois podem temer um e talvez dez; mas mil, um milhão, mil cidades, se não se defendem de um, não é covardia, que não chega a isso, assim como a valentia não chega a que um só escale uma fortaleza, ataque um exército, conquiste um reino. Então, que monstro de vício é esse que ainda não merece o título de covardia, que não encontra um nome feio o bastante, que a natureza nega-se ter feito, e a língua se recusa nomear?
(...)
Até os bois gemem sob o peso do jugo; e na gaiola os pássaros se debatem (...). Em suma , se todas as coisas que têm sentimento, assim que os têm, sentem o mal da sujeição e procuram a liberdade; se os bichos sempre feitos para o serviço do homem só conseguem acostumar-se a servir com o protesto de um desejo contrário – que mau encontro foi esse que pôde desnaturar tanto o homem, o único nascido de verdade para viver francamente, e fazê-lo perder a lembrança de seu primeiro ser e o desejo de retomá-lo?

(Discurso da Servidão Voluntária, trad. Laymert dos Santos, Ed. Brasiliense, 1982, pp. 12-13 e 18-19.)

Montesquieu/Do Espírito das Leis

Há, em cada Estado, três espécies de poderes: o poder legislativo, o poder executivo das coisas que dependem do direito das gentes, e o executivo das que dependem do direito civil.
Pelo primeiro, o princípe ou magistrado faz leis por certo tempo ou para sempre e corrige ou ab-roga as que estão feitas. Pelo segundo, faz a paz ou a guerra, envia ou recebe embaixadas, estabelece a segurança, previne as invasões. Pelo terceiro, pune os crimes ou julga as querelas dos indivíduos. Chamaremos este último o poder de julgar e, o outro, simplesmente o poder executivo do Estado.
A liberdade política, num cidadão, é esta tranquilidade de espírito que provém da opinião que cada um possui de sua segurança; e, para que se tenha esta liberdade, cumpre que o governo seja de tal modo, que um cidadão não possa temer outro cidadão.
Quando na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratura o poder legislativo está reunido ao poder executivo, não existe liberdade, pois pode-se temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado apenas estabeleçam leis tirâncias para executá-las tiranicamente.
Não haverá também liberdade se o poder de julgar não estiver separado do poder legislativo e do executivo. Se estivesse ligado ao poder legislativo, o poder sobre a vida e a liberdade dos cidadãos seria arbitrário, pois o juiz seria legislador. Se estivesse ligado ao poder executivo, o juiz poderia ter a força de um opressor.
Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo, exercessem esses tês poderes: o de fazer leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos indivíduos.
MONTESQUIEU.Do Espírito das Leis, Col. Os Pensadores.São Paulo, Abril Cultural, 1973. p.156-157.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Jean-Jacques Rousseau/Do Contrato Social

Dos deputados ou representantes

Numa pólis bem constituída, todos correm para as assembléias; sob um mau Governo, ninguém quer dar um passo para ir até elas, pois ninguém se interessa pelo que nelas acontece, prevendo-se que a vontade geral não dominará, e porque, enfim, os cuidados domésticos tudo absorvem. As boas leis contribuem para que se façam outras melhores, as más levam a leis piores. Quando alguém disser dos negócios do Estado: Que me importa? - pode-se estar certo de que o Estado está perdido.
A diminuição do amor à pátria, a ação do interesse particular, a imensidão dos Estados, as conquistas, os abusos do Governo fizeram com que se imaginasse o recurso dos deputados ou representantes do povo nas assembléias da nação. É o que em certos países ousam chamar de Terceiro Estado. Desse modo, o interesse particular das duas ordens é colocado em primeiro e segundo lugares, ficando o interesse público em terceiro.
A soberania não pode ser representada pela mesma razão por que não pode ser alienada, consiste essencialmente na vontade geral e a vontade absolutamente não se representa.É ela mesma ou é outra, não há meio-termo. Os deputados do povo não são, nem podem ser seus representantes; não passam de comissários seus, nada podendo concluir definitivamente. É nula toda lei que o povo diretamente não ratificar; em absoluto, não é lei. O povo inglês pensa ser livre e muito se engana, pois só o é durante a eleição dos membros do parlamento; uma vez estes eleitos, ele é escravo, não é nada. Durante os breves momentos de sua liberdade, ou uso, que dela faz, mostra que merece perdê-la.


ROUSSEAU,Jean-Jacques.Do Contrato Social, Col. Os Pensadores.São Paulo, Abril Cultural,1973, p.113-114.

domingo, 24 de maio de 2009

Baruch Espinosa/Ética



Parece que o vulgo está persuadido de coisa diferente. A maioria dos homens, com efeito, parece crer que é livre na medida em que é permitido aos homens obedecerem ao apetite sensual, e que eles renunciam à sua autonomia enquanto são obrigados a viver segundo os preceitos da lei divina. Crêem, assim, que a Moral e a Religião e, em absoluto, tudo que se relaciona à fortaleza da alma são fardos que esperam ser desonerados depois da morte para receber o preço da servidão, isto é, da Moral e da Religião; e punidos por duros suplícios depois da morte os induz a viver segundo as prescrições da lei divina tanto quanto o permitem a sua pequenez e impotência. E se os homens não tivessem esta esperança e este temor, se cressem, ao contrário, que as almas perecem com o corpo e que os infelizes, sobrecarregados com o fardo da Moral, não têm diante de si outra vida, voltariam ao seu natural e quereriam tudo governar segundo o seu apetite sensual e obedecer mais à fortuna do que a si mesmos. O que não me parece menos absurdo do que alguém, porque não acreditasse poder nutrir eternamente seu corpo com bons alimentos, preferisse saturar-se de venenos e substâncias mortíferas; ou porque supusesse que a alma não é eterna ou mortal, preferisse ser louco e viver sem Razão; absurdos tais que não merecem quase ser notados.
Baruch Espinosa, Ética - Livro V. Rio de Janeiro, Ediouro, s.d., p.p.211-212.

Friedrich Nietzsche/A Gaia Ciência


§ 341
O mais pesado dos pesos - E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse : "Esta vida, assim como tu a vives e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poerinha da poeira!" - Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!". Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela? -
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência in Col. Os Pensadores. São Paulo, Nova Cultural, 1999, p.193.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Blaise Pascal/Pensamentos



346. O pensamento faz a grandeza do homem.
347. O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água, bastam para matá-lo. Mas, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso.
Toda a nossa dignidade consiste, pois, no pensamento. Daí é que é preciso nos elevarmos, e não do espaço e da duração, que não poderíamos preecher. Trabalhemos, pois, para bem pensar; eis o princípio da moral.
Blaise Pascal, Pensamentos. "Os Pensadores", São Paulo, Abril Cultural, 1973.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Walter Benjamin/Origem do Drama Barroco Alemão

(...)o mundo não conhece um livro que seja maior que ele próprio; mas sua parte mais gloriosa é o homem, ante o qual Deus imprimiu, em vez de um belo frontispício, sua imagem incomparável(...). O livro era considerado um monumento permanente ao teatro da natureza, rico em coisas escritas (...). Enquanto cidades inteiras submergem e são inundadas pelo mar, livros e escritos estão isentos dessa destruição, pois os que se perderam num país e num lugar poderm ser facilmente reencontrados em outros; nada há na experiência humana de mais duradouro e imortal que os livros.
Walter Benjamin, Origem do Drama Barroco Alemão. São Paulo, Brasiliense, 1983, pp.184-185

terça-feira, 14 de abril de 2009

Jean-Paul Sartre/O Existencialismo é um Humanismo

Dostoievski escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer. O existencialista não crê na força da paixão. Não pensará nunca que uma bela paixão é uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos atos e que, por conseguinte, tal paixão é uma desculpa. Pensa, sim, que o homem é responsável por essa paixão. O existencialista não pensará também que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a terra, e que há de orientar; porque pensa que o homem decifra ele mesmo esse sinal como lhe aprouver. Pensa, portanto, que o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem. Disse Ponge num belo artigo: "O homem é o futuro do homem". É perfeitamente exato. Somente, se se entende por isso que tal futuro está inscrito no céu, que Deus o vê, nesse caso é um erro, até porque nem isso seria um futuro. Mas se se entender por isso, seja qual for o homem, tem um futuro virgem que o espera, então essa frase está correta.
Jean-Paul Sartre. O existencialismo é um humanismo, Col. Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1973, pp. 15-16

domingo, 12 de abril de 2009

Plutarco/O Amigo e o Bajulador

(O bajulador) espreita, por assim, dizer, o primeiro germe de nossas paixões, a fim de atiçar o fogo, nutrir feridas perigosas, e entregar à corrupção essas partes viciadas de nossa alma. Você está encolerizado? “Castigue”, ele lhe dirá. Você deseja algo? “desfrute”. Você tem medo? “Fuja”. Você tem suspeitas? “Acredite”

Semelhante aos pintores ruins, cujo talento, muito fraco para exprimir os traços mais belos, só representam a semelhança através das rugas, cicatrizes e outras deformidades, (o bajulador) só sabe imitar as nossas desordens, nossas superstições, nossa cólera, nossa rigidez para com nossos escravos, nossa desconfiança para com nossos parentes e nossos próximos.

De qual bajulador é preciso se proteger? Daquele que não aparenta sê-lo, que nunca surpreendemos rodeando as cozinhas ou calculando no relógio a hora do jantar, e que nunca se permite à mesa nenhum excesso, mas que é sóbrio e moderado, curioso para ver tudo e tudo ouvir, procura antes envolver-se nos nossos negócios, penetrar em nossos segredos mais íntimos; enfim, aquele que, longe de interpretar seu personagem bufão ou comediante, conserva na conduta ou caráter sério e honesto.

Plutarco. Como distinguir o amigo do bajulador. Tradução de Célia Gambini. São Paulo, Scrinium, 1997

sábado, 11 de abril de 2009

Hannah Arendt/O Pensar

O pensamento acompanha a vida e é ele mesmo a quintessência desmaterializada do estar vivo. E uma vez que a vida é um processo, sua quintessência só pode residir no processo real do pensamento, e não em quaisquer resultados sólidos ou pensamentos específicos. Uma vida sem pensamento é totalmente possível, mas ela fracassa em fazer desabrochar sua própria essência - ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente viva. Homens que não pensam são como sonâmbulos.
Hannah Arendt, A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1995, p.143

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Deleuze/Signos e acontecimentos

Os filósofos trazem novos conceitos, expõem novos conceitos, mas não dizem ou não dizem completamente, os problemas aos quais esses conceitos correspondem. Por exemplo, Hume expõe um conceito original de crença, mas não diz por que e como o problema do conhecimento se coloca de forma que o conhecimento seja um modo determinável de crença (...) A Filosofia consiste sempre em inventar conceitos (...) Hoje a informática, a comunicação, a produção comercial é que se apropriam das palavras conceito e criativo, esses conceituadores constituem uma raça arrogante que exprime o ato de vender como supremo pensamento capitalista, o cogito da mercadoria. A Filosofia sente-se pequena e solitária diante de tais potências, mas, caso lhe aconteça morrer, pelo menos será de rir.

Gilles Deleuze, Signos e Acontecimentos.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Friedrich Nietzsche/A Gaia Ciência







(...) Nós filósofos não temos a liberdade de separar entre alma e corpo, como o povo separa, e menos ainda temos a liberdade de separar entre alma e espírito. Não somos rãs pensantes, nem aparelhos de objetivação e máquinas registradoras com vísceras congeladas - temos constantemente de parir nossos pensamentos de nossa dor e maternalmente transmitir-lhes tudo o que temos em nós de sangue, coração, fogo, prazer, paixão, tormento, consciência, destino, fatalidade. Viver - assim se chama para nós, transmudar constantemente tudo o que nós somos em luz e chama; e também tudo o que nos atinge; não podemos fazer de outro modo.

A Gaia Ciência, Prefácio da Segunda Edição, §3 in Col. Os Pensadores, Nova Cultural, São Paulo, 1999, p.175.