quarta-feira, 24 de março de 2010

Michel de Montaigne/De Como Filosofar é Aprender a Morrer

Não sabemos onde a morte nos aguarda, esperemo-la em toda parte. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento.
(...)
Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante. Imagináveis então nunca chegardes ao ponto para o qual vos dirigíeis? Haverá caminho que não tenha fim? E se o fato de ter companheiros vos pode consolar, pensai que o mundo inteiro segue caminho idêntico: “As raças futuras vos seguirão por sua vez” (Lucrécio).
Tudo obedece ao mesmo impulso a que obedeceis. Haverá algo que não envelheça como vós envelheceis? Milhares de homens, milhares de animais, milhares de outras criaturas morrem no mesmo instante que morreis: “não há uma só noite, nem um só dia em que não ouçam, misturados aos vagidos dos recém-nascidos, os gritos de dor em torno dos esquifes”(Lucrécio).

Michel de Montaigne, Ensaios, Livro I, Cap.XX.São Paulo, Nova Cultural, 1996, p.p.97,103-104.

2 comentários:

  1. olá, Ricardo. vc tem a íntegra do ensaio do M. para me passar? não consigo localizá-la na web. Renata

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  2. Olá Renata!
    A íntegra só tenho no livro físico, não tenho virtual. No entanto achei uma versão no 4shared só não sei se está completo. Segue o link http://www.4shared.com/account/document/Gx4e_ZK8/Montaigne_-_Ensaios_-_Coleo_Os.html.
    Agradeço a visita.

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